
Versículo central:
“Há palavras que ferem como espada, mas a língua dos sábios traz a cura.”
Provérbios 12:18
Existem feridas que ninguém consegue enxergar.
Não deixam marcas no corpo, não aparecem em exames e muitas vezes nem são percebidas por quem está ao nosso redor. Ainda assim, podem permanecer dentro de uma pessoa durante anos.
São as feridas causadas pelas palavras.
Uma resposta grosseira. Uma humilhação. Uma palavra dita com desprezo. Uma crítica feita para machucar. Uma frase pronunciada durante uma discussão que, depois que tudo termina, continua ecoando na mente de quem ouviu.
A Bíblia conhece muito bem o poder que existe naquilo que falamos.
Por isso, Provérbios compara certas palavras a golpes de espada. A imagem é forte porque nos mostra que a boca também pode ser usada como uma arma.
Mas o mesmo versículo apresenta o outro lado:
a língua também pode trazer cura.
Isso significa que todos os dias temos uma escolha diante de nós: nossas palavras podem machucar alguém ou podem ser instrumentos de Deus para levantar, consolar, corrigir com amor e trazer paz.
Às vezes justificamos nossa maneira de falar dizendo:
“Eu só falei a verdade.”
Mas falar a verdade não nos dá autorização para tratar alguém com crueldade.
É possível estar certo sobre aquilo que estamos dizendo e, ainda assim, estar errado na maneira como estamos dizendo.
A Bíblia ensina:
“A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.”
Provérbios 15:1
Observe que o texto não fala apenas sobre o conteúdo da resposta. Ele fala sobre a maneira de responder.
O tom importa.
A intenção importa.
A forma como tratamos o outro importa.
Podemos corrigir sem humilhar. Discordar sem ofender. Podemos estabelecer limites sem destruir. Podemos expressar nossa dor sem transformar nossas palavras em armas.
Jesus fez uma declaração ainda mais profunda:
“A boca fala do que está cheio o coração.”
Mateus 12:34
Isso nos leva para além do comportamento.
Talvez o problema não esteja apenas nas palavras que saem da boca. Talvez seja necessário perguntar o que está acontecendo dentro do coração.
Por que estou falando dessa maneira?
Será que estou tentando ferir porque também fui ferido?
Por que respondo com agressividade?
Por que tenho dificuldade de pedir perdão depois que percebo que machuquei alguém?
Muitas vezes carregamos irritação, orgulho, ressentimento, frustração ou mágoas que acabam aparecendo justamente na maneira como tratamos as pessoas mais próximas.
E é aí que a Palavra de Deus nos confronta.
É relativamente fácil demonstrar educação para desconhecidos.
Mais difícil é manter mansidão dentro de casa, com o marido, esposa, filhos, pais, irmãos, colegas de trabalho e aquela pessoa que convive conosco todos os dias e conhece exatamente os pontos que nos irritam.
A verdadeira transformação cristã não aparece apenas quando levantamos as mãos durante uma oração ou quando conhecemos muitos versículos.
Ela também aparece na maneira como tratamos pessoas quando estamos cansados, contrariados ou irritados.
Paulo escreve:
“Não saia da boca de vocês nenhuma palavra que cause destruição, mas somente a que for boa para edificação.”
Efésios 4:29
Antes de falar, talvez algumas perguntas sejam necessárias:
O que estou prestes a dizer vai construir ou destruir?
Estou tentando resolver a situação ou simplesmente machucar a outra pessoa?
Eu gostaria que alguém falasse comigo dessa mesma maneira?
Aqui está uma das partes mais difíceis do Evangelho.
A Bíblia não ensina apenas a não ferirmos. Ela também nos ensina a não permitir que a maldade recebida determine quem nos tornaremos.
Quando alguém nos trata com grosseria, nossa reação natural é devolver na mesma medida.
“Se falou assim comigo, também vou falar.”
Mas Jesus apresenta outro caminho.
Não porque a ofensa deixa de ser errada. Não porque devemos fingir que não doeu. E também não porque precisamos aceitar continuamente comportamentos abusivos.
Mas porque não precisamos nos transformar naquilo que nos feriu.
Responder ao mal com outro mal apenas multiplica a ferida.
Por isso, Romanos 12:21 ensina:
“Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.”
Isso exige maturidade espiritual.
Às vezes vencer significa responder com mansidão.
Em outras situações, significa ficar em silêncio naquele momento.
Às vezes significa conversar depois que os ânimos se acalmarem.
E existem situações em que será necessário estabelecer limites.
Mansidão não significa permitir que alguém nos machuque repetidamente.
É muito fácil lembrar das palavras que nos feriram.
Muito mais difícil é lembrar das palavras com as quais nós ferimos alguém.
Por isso, esta reflexão não precisa terminar olhando para os erros dos outros.
Ela pode terminar com uma pergunta pessoal:
Como as pessoas se sentem depois de conversar comigo?
Mais leves ou mais pesadas?
Acolhidas ou diminuídas?
Respeitadas ou humilhadas?
Talvez algumas palavras não possam ser retiradas. Mas relacionamentos podem começar a ser restaurados quando existe humildade suficiente para dizer:
“Eu errei na maneira como falei com você. Me perdoe.”
E talvez essa pequena frase seja exatamente o começo da cura que Deus deseja produzir.
Antes de terminar este dia, pense em suas últimas conversas.
Existe alguém que você tratou com dureza?
Existe alguma palavra que precisa ser reparada?
Ou talvez seja você quem esteja carregando uma palavra dolorosa que alguém disse há muito tempo?
Leve as duas situações a Deus.
Peça que Ele cure aquilo que foi ferido em você, mas peça também que transforme aquilo que ainda pode ferir outras pessoas através de você.
Porque uma boca transformada começa em um coração transformado.
Que nossas palavras não sejam espadas nas mãos da ira, mas instrumentos de cura nas mãos de Deus.
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